Nova era jihadista no Magrebe
Wednesday, January 9, 2008 at 17:33
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Os atentados de 11 de Abril em Argel abriram uma “nova era jihadista” no Norte de África. Depois da Argélia e Marrocos a Al-Qaeda aponta a Península Ibérica, para «libertar as terras do Islão desde Jerusalém até ao Al-Andaluz». Através deste artigo, elaborado apenas com o recurso a fontes abertas, pretendemos dar a conhecer uma organização terrorista «tradicional», o Dawa wal Jihad – Grupo Salafista para a Predicação e o Combate (conhecido pelo acrónimo francês GSPC), que reiteradamente vem ameaçando o Al-Andaluz e, em Setembro de 2006 filiou-se na Al-Qaeda, passando a designar-se “Al-Qaeda para o Magrebe Islâmico” (AQMI). A responsabilidade pelos recentes atentados de 11 de Abril, foi assumida pelos salafistas argelinos e o alegado responsável pelo atentado foi Samir Saiud, conhecido por Abu Moussab, um engenheiro, especialista em explosivos e veterano do Afeganistão, que viria a ser eliminado em 26 de Abril, num confronto com as forças de segurança argelinas na região de Si Mustapa, 40 Km a este de Argel. Os atentados de Argel devem ser observados como uma exibição de força que assinalam uma mudança estratégica, consolidando a AQMI, como um grupo aglutinador dos jihadistas norte-africanos, tendo como objectivos, desestabilizar os regimes locais “apóstatas”, atacar objectivos remuneradores ocidentais, instalar uma nova rede e base operacional alargada no Magrebe e no Sahel, por forma a ser levantado um Califado pan-islámico “desde o Al-Andaluz até ao Iraque”.
Os serviços de informações americanos e franceses estão convencidos de que a rede terrorista Al-Qaeda se reorganizou e até criou novos campos de treino, tanto no Afeganistão como nas remotas zonas tribais do Nordeste do Paquistão, escreveu na Spiegel on-line, o seu especialista Yassin Mushabash. O desmantelamento da maior parte da sua estrutura inicial levou a central terrorista a reorganizar-se em rede. Deixou de ter uma organização hierarquizada e a sua direcção transmutou-se numa referência ideológica e em mentor estratégico de grupos organizativamente independentes, é o chamado terrorismo por franchising. Em troca de vassalagem, Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri oferecem a “marca”, prestígio, propaganda, contactos internacionais, treino e objectivos estratégicos gerais, o que multiplica a sua visibilidade e a capacidade de acção e recrutamento. Zawahiri, o médico egípcio lugar-tenente de bin Laden, há mais de 10 anos que faz votos, para que Alá conceda aos jihadistas, “a graça de pisarem com pés puros o usurpado Al-Andaluz”, pelo que a chegada, com estrondo, da Al-Qaeda ao Norte de África (30mortos em Argel, outra vez num dia 11) foi vista pelos serviços de informações ocidentais como o primeiro passo nesse sentido. Seguir-se-ão os enclaves espanhóis de Marrocos, as praças de Ceuta e Melilla, que estão a passar por um acelerado processo de re-islamização – o número dois da Al-Qaeda e seu principal estratega, compara-as a “zonas de conflito” como a Palestina e a Chechénia – e, finalmente, a própria «grande Espanha» que já alberga um milhão de muçulmanos. Num comunicado, divulgado em Julho de 2006, este proeminente dirigente refere que os muçulmanos são “filhos” de, entre outros, Yusuf Bin Tasfin, emir almorávida que aglutinou os reinos de taifas peninsulares e, os incorporou no seu domínio no norte de África, e em 1086, combateu vitoriosamente as tropas de Afonso VI de Castela. 1. RISCOS DA AMEAÇA JIHADISTA 1.1. Origem e orientação ideológica A actual ameaça jihadista está relacionada com a expansão, ao longo do século XX, de uma corrente de pensamento islâmica sunita puritana, retrógrada e sectária, geralmente designada como islamismo salafista. Esta corrente daria origem a uma diversidade de grupos e organizações islâmicas, identificadas com um mesmo objectivo: transformar a vida social e política dos países muçulmanos mediante a implantação da lei islâmica (sharia) como norma fundamental, assim como a difusão e imposição de um modelo de organização social baseado no idealizado estilo de vida da comunidade islâmica primitiva estabelecida por Maomé e os seus primeiros seguidores, os salaf ou pios antepassados (que deu origem ao termo salafismo). Ainda que nem todos os movimentos salafistas sejam violentos, de entre eles surgirá na segunda metade do séc. XX uma ramificação ideológica essencialmente agressiva, o salafismo jihadista, que retoma de algumas teologias medievais certas orientações ideológicas determinantes: a. O conceito de yahiliyya, inicialmente utilizado para descrever a ignorância pagã em que viveram os árabes até à reve1ação de Maomé, será recuperado pelos ideólogos radicais para denunciar o estado de depravação moral que caracterizaria as sociedades do séc. XX, sem excluir as dos países muçulmanos; b. A doutrina takfir, que estigmatiza como infiel ou apóstata qualquer pessoa que não abrace a versão salafista do Islão; c. A acepção mais belicosa do termo árabe jihad(esforço no caminho de Alá), geralmente empregue para legitimar, promover ou exigir o uso da violência a fim de impor a sharia e defender os crentes de todos os seus inimigos. Entre finais dos anos 70 e até meados dos anos 90 do século passado, emergiram em vários países muçulmanos novas organizações aderentes ao salafismojihadista que exerceram a violência, normalmente por métodos terroristas, contra os seus próprios governantes e concidadãos – sobressaindo entre outros, os casos do Egipto, Palestina e Argélia. Em Dezembro de 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão criando a primeira frente da actividade jihadista multinacional. A campanha afegã atraiu numerosos jovens radicais sedentos de aventuras e sangue, assim como importantes líderes jihadistas: destacando-se o palestiniano Abdullah Azzam, mentor de Bin Laden, ou Ayman al-Zawahiri, então líder de uma forte organização terrorista egípcia, Tanzim al-Jihad. Do ponto de vista doutrinário, a colaboração entre combatentes muçulmanos, de nacionalidade diversa, deu um novo valor à noção clássica de Umma (comunidade dos crentes), última peça imprescindível para outorgar sentido a um projecto político panislámico, ou seja, de implantação transnacional. A experiência afegã também aglutinou os membros necessários para a criação da Al-Qaeda, primeira e principal organização jihadista multinacional. À posteriori, o influxo exercido pela Al-Qaeda e as suas alianças com outras organizações jihadistas locais converteram o projecto de Bin Laden na ponta de lança de um autêntico movimento jihadista global. 1.2. Objectivos estratégicos O projecto de uma jihad global desejado pela Al-Qaeda e outras organizações salafistas violentas, aponta para vários objectivos complementares que podem enumerar-se da seguinte forma: a) Substituir os actuais governos muçulmanos, que consideram ímpios, por futuras teocracias adaptadas ao ideal salafista e nas quais impere a sharia; b) Derrotar os inimigos que atacam os muçulmanos: como por exemplo, no Afeganistão, Bósnia e Herzegovina, Somália, Palestina e Israel, Líbano, Iraque, Índia, Filipinas, Chechénia ou outros países do Cáucaso, entre outros; c) Reconquistar os territórios que outora fizeram parte do mundo islâmico, como a Palestina e Israel, os Balcãs, as ilhas mediterrâneas, o sul de Itália, a Grécia e as vastas regiões de Espanha e Portugal que constituíram o Al-Andaluz; d) Unificar todos os muçulmanos sob a mesma comunidade política, o califado.
A estes objectivos podem-se agregar outros dois. Um de alcance localizado: impor um estatuto político diferenciado (baseado na sharia) para as comunidades de imigrantes muçulmanas estabelecidas em países não islâmicos; e outro de índole universal: expandir o Islão até aos confins da terra. |





